Covilhã - Porto de comboio

As linhas do interior do país têm sido das mais afectadas com o esquecimento a que o caminho de ferro tem sido votado durante as últimas décadas, tendo-lhes sido reservado o encerramento ou uma prestação de serviços medíocre. Consciente desta realidade, surgiu na Covilhã, em 1992, o Grupo de Amigos da Linha da Beira Baixa - "O 6 de Setembro". O final da década de 80 havia sido um dos marcos mais negros da história do caminho de ferro em Portugal, com encerramentos de numerosas linhas de norte a sul. Tendo o comboio alguma popularidade no interior beirão, este grupo surge para acautelar qualquer tentativa irresponsável de encerramento de toda ou de parte da Linha da Beira Baixa.

Hoje a Covilhã é servida, em cada sentido, por dois Intercidades para Lisboa, de conforto indiscutível, apesar da linha até Vale de Prazeres estar num estado miserável. A electrificação entre o Entroncamento e a Central do Pego acelerará igual processo na restante linha. Mas tarda... E a modernização do Sul e do Minho pode relegar a Beira Baixa para um futuro mais longínquo.

A norte surge um outro paradigma: a Linha da Beira Alta, já renovada e electrificada, fica a uma longa hora de distância pois a velocidade não excede os 40 kms/h (20km/h nas pontes). E este facto é o grande mal que enfranquece a luta nessa grande batalha que são as ligações ao Porto e a Coimbra.

Neste sentido, e talvez como forma de reabilitar os laços com o norte, a criação do Comboio Académico que deve a sua génese inteiramente ao "O 6 de Setembro", vem (re-)estabelecer uma ligação semanal Covilhã - Porto (Sextas no sentido ascendente e Domingos no sentido inverso), pela Beira Alta, especialmente dirigida aos estudantes universitários. O serviço é feito integralmente por carruagens de primeira classe que antigamente faziam os Rápidos Lisboa - Porto, posteriormente substituídos pelos Alfa. Tem serviço de bar e de refeições ligeiras. O preço do bilhete Covilhã - Porto é de 1400$00 havendo desconto de 10% nos bilhetes de ida e volta. Foi para falar sobre este e outros temas que entrevistei os membros do "O 6 de Setembro".

CMF - Como surgiu "O 6 de Setembro" já que hoje o Caminho de Ferro parece estar afastado das grandes opções nacionais em detrimento das estradas?

6Set. - "O 6 de Setembro" surgiu da necessidade de se estabelecer uma plataforma de debate e defesa, a nível local, do caminho de ferro da Beira Baixa, numa altura em que a Linha da Beira Alta conhecia fortes investimentos, o qual, no entender deste grupo, é um projecto de grande envergadura, que não teve em linha de conta o desenvolvimento regional. Neste contexto, o caminho de ferro poderia colmatar uma grande lacuna na questão das acessibilidades, ao mesmo tempo que melhoraria significativamente as ligações a Coimbra, Aveiro e Porto.

CMF - Como interpreta a postura recente do governo que, ao afirmar não fechar mais linhas (se bem que a Linha Póvoa - Famalicão já tenha encerrado durante o actual governo), acaba por deixar que os carris das antigas linhas e das quais se falava de um possível aproveitamento em diversos sectores, sejam levantados?

6Set. - É entender de "O 6 de Setembro" que o governo ainda não tem um conhecimento devidamente elaborado sobre a realidade ferroviária. A visão que possui é a que lhe é fornecida pelas estruturas da CP as quais estão imbuídas de uma filosofia de encerramentos e/ou cortes a pretexto de uma possível rentabilização.

CMF - Após anos de um regime bolorento, a democracia trouxe consigo um desprezo do colectivo, em particular do caminho de ferro visto como meio retrógado, em parte ligado a uma certa imaturidade da nação e ao envelhecimento das estruturas existentes. Neste sentido, qual a relação que as gentes da Beira Interior têm tido com o comboio?

6Set. - As gentes da beira sempre tiveram uma empatia muito grande com o comboio, só não entendem é porque é que ao longo dos anos, não lhes melhoraram esse meio de transporte, nalguns casos sem ouvir as populações. Sempre que tem havido inovação, a adesão ou o regresso das populações ao caminho de ferro tem sido uma realidade. Os Intercidades são disso prova.

CMF - De que modo tem "O 6 de Setembro" sido ouvido pelos orgãos de Poder Local, estando este, quase sempre, pouco virado para as questões ferroviárias? 6Set. - "O 6 de Setembro" tem procurado estabelecer um diálogo com as autarquias sensibilizando-as para as grandes questões do caminho de ferro, de interesse local, com o intuito de as mesmas interiorizarem este processo evolutivo, cujas consequências para o interesse público são da maior oportunidade.

CMF - O comboio que irá começar agora a circular no dia 31 é resultado do que suponho ser um longo processo de diálogo com a CP nem sempre muito pacífico. Qual o historial de todo este processo que agora se concretiza?

6Set. - A história do comboio Académico Covilhã - Porto - Covilhã, a ter lugar aos fins de semana, resulta de um diálogo com a CP que tem cerca de um ano, quando este projecto foi interiorizado pela própria CP. A sensibilização e o falar das questões remontam ao surgimento deste grupo em 1991. Reconhecemos que houve muita maturidade no diálogo por parte de ambas as partes. Mas houve que vencer algumas dificuldades de percurso.

CMF - Uma das questões que agora se coloca com este novo comboio é o mau estado da via entre a Covilhã e a Guarda onde se realizam das piores velocidades no que resta da rede ferroviária nacional. Para quando a concretização do estabelecido no PRODAC 1988-94, contemplando a renovação integral da via?

6Set. - António Guterres informou em 15 de Setembro que a renovação vai fazer-se de Vale de Prazeres até à Covilhã. O troço até à Guarda, está previsto para 2001. "O 6 de Setembro" entende que, de momento, estão reunidas as condições para se efectuar uma grande reparação da Covilhã até à Guarda de modo a melhorar o estado da linha, pelo que este troço não pode ser deixado com está.

CMF - Quais as principais metas que "O 6 de Setembro" se propõe alcançar nos próximos anos?

6Set. - As principais metas de "O 6 de Setembro" para os próximos anos têm a ver com a modernização de que a linha terá que ser alvo, para se caminhar para a electrificação. Melhorar as ligações tanto com Lisboa como com o eixo Coimbra, Aveiro Porto, de modo que estas tenham uma periodicidade diária permitindo a ida e regresso no mesmo dia.

Continuar o diálogo para a dignificação da imagem do caminho de ferro a nível nacional, participar em todos os debates conducentes a esse objectivo e dar o seu contributo para a preservação do patromónio ferroviário até que o Museu Nacional Ferroviário seja uma realidade. Dialogar com as associações congéneres é fundamental para que todos os enunciados tenham prossecução.