Sinais de hostilidade à efervescência matemática

O que se passou com Guido Beck mostrou que não se podia confiar muito na colaboração das entidades oficiais de então para se vencer o atraso em que o nosso País se encontrava, nos vários campos científicos e, particularmente, no campo matemático.

Razão tinha António Monteiro quando, na Gazeta de Matemática, no artigo sobre a origem e objectivos da secção Movimento Matemático (Gaz. Mat., n(o) 10, pp. 25-26), advertia:

"... não devemos ter ilusões de espécie alguma sobre as dificuldades que nos esperam.

Há que contar - isto é de todos os tempos! - com um recrudescimento da hostilidade da ignorância e da má fé; da hostilidade daqueles para quem a estagnação ou a decadência da nossa cultura matemática é a condição necessária para a realização de objectivos que nada têm que ver com as ciências matemáticas, daqueles que tremem perante a ideia da existência de uma juventude estudiosa consagrando inteiramente a sua vida e o seu entusiasmo a uma causa pela qual eles nunca lutaram - porque o esforço, a diligência no estudo revelam de uma maneira evidente os erros do passado e as deficiências do presente -, da má fé daqueles que apregoam um interesse e um entusiasmo pelo desenvolvimento da cultura matemática que são desmentidos categoricamente pela sua actuação presente, da má fé daqueles que consideram como revelações de inteligência e da capacidade a adoração da rotina que o uso consagrou e de que eles são por vezes os mais legítimos representantes; há que contar ainda com a ignorância (e que enciclopédica ignorância!) daqueles que afirmam que o nosso país está perfeitissimamente ao corrente do movimento matemático moderno, que o nível dos nossos estudos matemáticos se pode pôr a par do dos países mais avançados, e finalmente, há que contar com a indiferença (que estranha e cómoda indiferença!) daqueles que dizem que no nosso país não há nada a fazer, que os portugueses são incapazes de realizar um esforço persistente e continuado e que, portanto, são incapazes de contribuir para o progresso das ciências matemáticas!"

Mas os sinais de hostilidade ao movimento científico e, especialmente, ao movimento matemático, as manifestações (quase sempre não inocentes!...) de pessimismo sobre a capacidade dos portugueses em geral e, em particular, da juventude, não faziam desanimar António Monteiro.

De facto, nesse mesmo artigo, Monteiro proclamou:

"Pensamos que o aparecimento destas manifestações deve servir apenas para nos indicar que seguimos pelo bom caminho - porque, a cada tarefa realizada, a reacção deve aumentar - e que nunca devemos desviar a nossa atenção do trabalho metódico e persistente para controvérsias de carácter duvidoso.

É precisamente pelo estudo, pelo trabalho de investigação e pela propaganda das matemáticas, que se pode preparar o ressurgimento dos estudos matemáticos em Portugal, mas importa evidentemente orientar a nossa actuação pelas lições que nos são dadas pela nossa experiência e pela experiência das outras nações. Há que definir um rumo, e segui-lo enquanto a experiência mostrar que estamos no bom caminho!"


Up one level

Back to document index

Original file name: capIII1

This file was converted with TextToHTML - (c) 1995 Kris Coppieters