Na lista das secções científicas do ICM 2006 (International Congress of
Mathematicians) a secção de Geometria Complexa e Algébrica conta-se entre as
mais vastas, com um total de 15 temas de investigação. Adicionalmente,
o número de oradores convidados pelo ICM 2006 para esta secção científica
reforça ainda mais a ideia de
que a Geometria Algébrica continua a ser uma das áreas mais
activas da Matemática. Tem sido assim ao longo de várias décadas e a
demonstrá-lo está o número de matemáticos galardoados
com a Medalha Fields oriundos desta área.
Ao todo, perfazem um quarto de todos os medalhados:
Kodaira, Serre, Atiyah,
Grothendieck, Hironaka,
Bombieri, Mumford, Deligne,
Faltings, Mori e
Lafforgue; a que se deve acrescentar o mediático Andrew Wiles, que em 1998
mereceu a distinção de uma "menção
especial" (Special Tribute) do Instituto Fields. Facto algo irónico, dado o
desconhecimento generalizado dos medalhados
(mesmo em algumas comunidades matemáticas) que, não obstante,
receberam a distinção maior. Claro que, como todos sabemos, o Instituto Fields
viu com Andrew Wiles o quão extemporânea é a máxima, capaz de humilhar qualquer
matemático com justa pretensão à medalha, de que a melhor obra matemática é
aquela realizada até à idade dos 40 anos. Mas, conceda-se, foi por pouco. Wiles
tinha 40 anos quando, a tempo de concorrer à medalha, comunicou a demonstração
do último teorema de Fermat. Sucedeu, como sucede tantas vezes em Matemática,
que foi possível encontrar um "buraco" na sua argumentação.
A história da Geometria Algébrica é longa, podendo situar-se o nascimento da
investigação nesta área da Matemática no século XIX, ainda que essa
investigação se debruçasse sobre conceitos mais antigos.
Os três primeiros quartéis do
século XX ficaram marcados por uma forte procura do rigor na Matemática
cujo reflexo em Geometria Algébrica é a
introdução de fundações sólidas. Ainda assim, existem
muitos problemas de carácter fundacional que
sobreviveram até ao presente (e outros que surgiram entretanto, e.g., na Teoria de Classificação de Variedades
Algébricas) que dariam matéria prima para um doutoramento de elevada
qualidade. Por outro lado,
nas áreas em que existem fortes fundações teóricas, como a da
Teoria de Moduli de Curvas Algébricas, há ainda
muitas questões por resolver de cariz meramente computacional.
Embora se tenha como uma das áreas mais puras da Matemática,
a Geometria Algébrica é tida em inúmeras interacções com outras disciplinas da
Ciência. Talvez este facto possa ser justificado pela força matemática
das suas ideias. A Teoria de Representações,
a Álgebra Linear, a Teoria de Categorias, a Teoria de Códigos,
a Teoria de Controlo e Optimização, a Estatística e a Física
Teórica são algumas áreas da ciência em que, actualmente, são usados
conceitos e técnicas de Geometria Algébrica.
Perante este cenário, é evidente
que um curso de introdução à Geometria Algébrica deva estar ao alcance do
aluno interessado na carreira de investigação, independentemente de se destinar
a uma área dita pura ou aplicada. Todavia,
mesmo não se tratando de uma carreira de investigação que o leitor pretenda,
saiba que existem aplicações da Matemática na consultoria à industria e
serviços, que carecem
de algumas bases em Geometria Algébrica, como é o caso da Estatística
Algébrica.
Janeiro 2006